Entrevista a Manuel Pureza – Um olhar pelo horizonte até chegar ao ‘Pôr do Sol’.

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Em www.bertrand.pt

O realizador Manuel Pureza, foi muito prestável e disponibilizou-se para efetuar uma entrevista a meu pedido, aqui para o projeto onde o Cinema e Televisão são os protagonistas principais, mas que seria de tudo isto sem realizadores? Nunca iria existir. Por isso mesmo, desta vez, queria muito entrevistar alguém que estivesse por detrás do resultado final.

Certamente conhecem a série ‘Pôr do Sol’, um enorme sucesso de sátira a novelas, mas atenção, tudo de forma altamente respeitosa, até porque o realizador Manuel Pureza já passou por este tipo de ficção que acompanha todas as noites de grande parte dos portugueses. Porém, não só de ‘Pôr do Sol’ é feito este realizador e produtor. Trabalhos como ‘Lua Vermelha’, ‘Desliga a Televisão’, ‘Linhas de Sangue’, ‘Até Que a Vida Nos Separe’, entre imensas outras produções que fizeram-nos companhia durante as noites em família, como por exemplo ‘Rosa Fogo’.

ENTREVISTA A MANUEL PUREZA

Antes de começarmos deixo aqui o link da conta @pt.cinema no Instagram que é gerida pelas duas meninas que me incentivaram a ver a série ‘Até Que a Vida Nos Separe’.
Depois de elogiar à bruta o trabalho do Manuel Pureza e me envergonhar completamente, aí sim começou a entrevista.

Erica Amaral (Tela Invisível) – à frente designada como EA: Há caras novas/novidades para a segunda temporada de ‘Pôr do Sol’?

Manuel Pureza – à frente designado como MP: O que é que eu te posso dizer… Há imensas caras novas para a troca, é o tipo de projeto que se presta a isso, não é? Portanto, sim temos muita gente nova a entrar. Não posso dizer quem, mas que é gente muito muito conhecida é.

EA: Como é que reagiste quando soubeste que a Netflix queria introduzir ‘Até Que a Vida Nos Separe’ no catálogo?

MP: Em boa verdade, isso aconteceu por teimosia nossa, ou seja, nós fomos bater lá à porta com uma coisa feita que é, enfim, um risco. E este meio é muito feito desses riscos que nós… melhor, às vezes as coisas parecem mais inalcançáveis do que realmente são. Imagina, se eu aqui há dez anos atrás, não tanto talvez… há seis anos atrás dissesse ou na minha cabeça fizesse sentido a coisa de “sim vou falar com a Netflix e eles vão aceitar”, para já falar com a Netflix era tipo falar com o Darth Vader, tem mais que fazer, tem um império inteiro para tomar conta. Portanto, essa foi a primeira e depois, em boa verdade, é isso, nós entrámos em contacto com eles, eles foram super recetivos, quase como se tivessem sido nossos amigos a vida toda, foi muito estranho e a primeira reação foi de espanto. Portanto o espanto deles provocou-nos um espanto maior em nós.
Estávamos muito orgulhosos do nosso produto evidentemente, mas temos noção da nossa escala, quer dizer, é uma coisa muito pequenina. Se pensares no orçamento da série, por comparação a qualquer orçamento de qualquer serie da Netflix Originals, sabes que estás a falar de um décimo ou ainda menos do valor possível, portanto do valor que temos… não estamos a falar de coisas comparáveis. No entanto, se fores uma utilizadora da Netflix com algum critério, não é?! Não vês só aquilo que está nas tendências, então consegues descobrir séries, nem digo forçosamente séries Iranianas ou séries Gregas, séries Francesas de nicho, mas consegues descobrir coisas até americanas mais Indie que tem uma coisa, enfim, aparentemente dentro da nossa lógica. Portanto, a minha reação é que a minha incredibilidade não foi com o facto deles quererem, foi o facto deles terem atendido o telefone. Tu estás a pensar “olha a Netflix não abriu a loja cá em Portugal”. Eu falei para Los Angeles, percebes?! Ou seja eu liguei/o meu contacto foi direto com Los Angeles, eu sabia que a Netflix fazia isto de forma repartida regionalmente, ou seja há uma Netflix que trata das compras da península Ibérica, outra da Europa, outra do sul da Europa, depois da Ásia da América, etc… e eu fui aos headquarters principais e eles reencaminharam para quem decidia as aquisições mundiais e isso foi incrível, estás a ver?! É mais ou menos a mesma coisa que de repente um ator internacionalmente conhecido, sei lá, um Harrison Ford ligar-te e dizer assim “Olha, Manuel, conheço o teu trabalho, por acaso não tens aí qualquer coisinha… (risos de ambos o lados). Harrison Ford, estás a gozar, pelo amor de Deus” mas foi isso, a reação foi essa, pois claro que sim.
Claro que depois foi a coisa mais difícil foi aguentar mais ou menos um ano e pouco sem dizer a ninguém que tínhamos conseguido isto. Falou-se do ‘Glória’ e o ‘Glória’ apareceu e o ‘Glória’ foi a primeira série original portuguesa na Netflix, sem dúvida nenhuma e muito bem feita, muito fixe a série, só que nessa altura já nós sabíamos que estávamos na Netflix, nós já sabíamos que tínhamos vendido, ou seja, não podes dizer a ninguém porque parece que estás a dizer “Ah não, não, os primeiros fomos nós!” Não é nada disso, é – nós já sabíamos e- não podíamos dizer porque como era um licenciamento demorou, as entregas demoram assim um bocadinho de tempo, é o normal, são coisas dos padrões de qualidade e não sei quê, mas foi assim.


EA: Estou a imaginar a vontade de dizer por aí logo “Eia, olha, isto vai sair na Netflix.”

MP: Nós sabíamos, tivemos de ter o aval da Netflix para dizer ao elenco, dissemos ao elenco numa esplanada em que abrimos uma garrafa de vinho, acho eu para comemorar com eles. e sim, ou seja foi uma coisa assim repartida, com algum cuidado porque eles são muito zelosos, o segredo é mesmo a alma do negócio, e é verdade.

EA: Que dicas é que darias a alguém que estivesse agora a começar, por exemplo a realizar, cá em Portugal, principalmente?

MP: Fazer! Quer dizer, regra geral, as pessoas acham que depois desta coisa da Netflix acham que nós temos imensos recursos para fazer séries e filmes… Não temos, é sempre difícil. É sempre uma corda no pescoço e isso tem tanto de mau, naturalmente, porque parece que estás sempre a começar do zero, como de bom, na medida em que tens de sempre lutar para ter as condições, melhores condições do que no último trabalho que fizeste. Quando eu comecei, eu entrei no Conservatório de Cinema em 2002 para Realização e percebi rapidamente que ou começava a trabalhar ou ia ser sempre por uma lógica de “Ah, porque é assim que se faz. Na teoria não é, podes filmar uma curta no conservatório e eu filmei 3, mas em ambiente controlado de escola. Quando tu chegas ao mercado de trabalho, quando vais para uma rodagem, ficas a perceber de facto como se faz no momento, e essas rodagens que eu fiz em 2002. Que eu comecei logo a trabalhar, fui logo bater às portas todas e acabei a trabalhar na Fado Filmes com o Luís Galvão Teles e com o Gonçalo Galvão Teles e depois com o Fonseca e Costa e tudo mais. Quer dizer, a maneira como se filmava nessa altura já foi mudando para a maneira como se filma hoje. Ainda me lembro, por exemplo, houve um filme do Fonseca e Costa, que eu fiz, que usou Câmeras Cinealta HD, como se isso fosse um fenómeno da tecnologia , hoje em dia tu filmas em HD com o teu telefone.

EA: É possível hoje em dia (quase) fazer um filme com um telefone…

MP: Sim, nós acreditamos que a pior coisa que nos acontece, a quem está a começar e eu estou-me a incluir sempre nesse lote das pessoas que estão a começar, é arranjamos muitas desculpas para não fazer e portanto “Ah, não há dinheiro. Eia, não tenho uma história. Não tenho um sítio. Eia, não tenho uma camera.” Então mais vale ficar em casa fechado, essas coisas não vão acontecer de um dia para o outro. Quando fizemos o ‘Linhas de Sangue’ tínhamos zero euros e nessa altura estava a dar o Sharktank em Portugal e nós decidimos ir bater à porta do Sharktank, dos Sharktanks, dos Sharks do Sharktank. Não fomos ao programa, fomos descobrir onde é que aquelas pessoas trabalhavam e viviam e não sei quê e acabamos por financiar o filme e é assim. E as séries também são um bocado essa onda… é fazer, filmar, andar à procura, juntar uns amigos, fazer coisas, arriscar e filmar, registar montar e tentar, e acho que essa é que é a grande dica.

EA: Como é que, por exemplo, se vai de fazer novelas para fazer sátira de programas e novelas, como no ‘Desliga a Televisão’ que é tudo, não é só novelas, eu achei muito curioso, nunca vi algo do género e pronto fiquei curiosa(permitam a redundância)

MP: eu em boa verdade comecei por fazer cinema, eu fui assistente de realização durante muitos anos, fui desde os meus 18 anos até aos meus 25 anos, portanto durante 7 anos trabalhei como assistente de realização

EA: São aquelas coisas que não vêm no IMDb, pronto…

MP: Pois não, não vêm mesmo, isso foi o meu percurso de aprendizagem, e ainda hoje aprendo todos os dias. E então eu andava a fazer curtas minhas e videoclipes e coisas assim e de repente conheci o Sérgio Graciano, que se tornou um dos meus melhores amigos de sempre, que me desafiou a ir fazer a ‘Lua Vermelha’ e eu fiz a ‘Lua Vermelha’ com muito gosto, gostei imenso de fazer e foi uma experiência. Ou seja eu não sou, eu nunca fui, creio, um espetador de novelas, mas a novela tem uma caraterística independentemente, de se gostar dela ou não, que é… é como um ginásio, ou seja tu vais para lá resolver cenas que não são fáceis de dizer, muito mais de fazer,muito mais de filmar ou realizar, vais para lá fazê-las e tens de cumpri-las num determinado tempo, é como se tivesses a fazer uma corrida, estás a ver?! “Ah a televisão é sempre a abrir!” Não é forçosamente sempre a abrir, é forçosamente sempre mais urgente, tem de ser muito mais organizada, porque infelizmente ou felizmente, não interessa: Portugal é -a indústria é- a da Televisão, é a da Novela, não é a do Cinema. A Novela é assistida diariamente por 3 milhões de pessoas, portanto, seja num canal ou noutro são 3 milhões de pessoas. A mim o que a novela me ofereceu, em boa verdade, para já, foi um desafio e segundo foi: aos 25 anos alguém chamar-me a mim realizador. Foi assim um motivo de orgulho gigante e depois: foi um treino durante muito tempo mesmo, eu fiz novelas para aí durante 9 anos, dos meus 25 até aos meus 34, até mais, 36?! Enfim, foi algum tempo de novelas, e a certa altura como veio também foi, porque eu já não tirava nenhum desafio daquilo, não digo que não volte a fazer novelas, não tenho essa intenção, de todo. Mas sinto que foi assim um processo enorme, um processo de aprendizagem. Ensinou-me muita coisa, lidar com equipas grandes, lidar com atores, lidar com a camera, com a montagem, a tentativa de fazeres alguma coisa criativa no meio deserto, é um desafio gigante.
Há muitos bons realizadores a fazer Novela em Portugal porque a novela paga-lhes as contas. Um filme não paga as contas, de vez em quando, salvo exceções, evidentemente. Pronto é óbvio que o meu objetivo sempre foi fazer séries ou fazer filmes, acho que hoje em dia até mais fazer séries, do que fazer filmes mas sim, fiz um filme em setembro passado e gostei imenso de o fazer e ainda não estreou, para o ano… Mas é isso, a Novela veio assim e foi assim, e ao mesmo tempo, simultaneamente, fazia novelas, fazia curtas, fazia publicidades, fazia umas coisas aqui, ali, e não sei quê. Só que como o país é tão pequenino eu acho que as pessoas dizem assim “Ah ele é realizador de novelas. Agora vem aqui fazer filmes.”, isso é mais redutor para quem diz do que, para mim, por exemplo, porque é “Ah ele faz novelas e agora está a fazer um filme.”, sim, mas fizemos ‘Pôr do Sol’ a brincar com as novelas que foi um êxito retumbante e ‘Até Que a Vida Nos Separe’ que é nomeado fora e acho que há muitas pessoas que não veem as séries, ou que à partida não veriam essas séries porque “Ah, não, isto é um gajo que faz novelas e não sei quê.”. É uma pena porque desperdiçam a oportunidade de se calhar… Nem todas as pessoas que fazem novelas, eu diria muito poucas pessoas, são estúpidas. (Risos) Também se tirarem um bocado a cabeça dentro da areia e fazerem pesquisa, acho que… Como tu foste à procura de ver o que é que eu tinha andado a fazer, não é?! Há muito pouca gente que faz, isso é ridículo. Pá, eu fui assistente do Fonseca e Costa durante 8 anos, aprendi mais com cinema em casa diariamente do Fonseca e Costa a ler livros do Antonioni que estavam assinados pelo Antonioni para o Zé, do que aprendi a ver Max Ophüls nas aulas do Joaquim Sapinho, mil vezes mais aprendi a fazer com o Fonseca e Costa.

EA: Esta vais me perdoar, eu já ouvi dizer que aqueles copos que o Rui Melo parte (em ‘Pôr do Sol’) são feitos de açúcar e que aquilo é muito caro… Então, agora na segunda temporada vão meter uns verdadeiros e olha que se lixe?

MP: Infelizmente não, voltam a ser daqueles caros. Voltam a ser de açúcar.

EA: Pobre Rui Melo…

MP: Pobres de nós… O Rui Melo, como ele costuma dizer, é muito fraquinho. Como ele é muito fraquinho ri-se muito. Há bocado estávamos aqui a fazer um ensaio aqui de algumas cenas que ele vai ter na segunda temporada e é impossível não rir. O mais difícil deste projeto é uma pessoa não se rir e conseguir manter-se séria.

EA: Eu quando vi isso dos copos pensei “Mas como é que ele não se ri no meio daquela gargalhada?” Ele começa e eu já me perdi a rir.

MP: E a maior parte das vezes quando eu digo “corta”, a seguir estamos não sei quanto tempo a rir. É inevitável.

EA: O que é que há aí de projetos novos, como falaste do filme, agora fiquei curiosa com o que pode ser dito ou não?

MP: Agora vamos fazer o ‘Pôr do Sol’ durante os próximos tempos, há-de estrear ainda este ano no verão. Depois vamos fazer aí mais dois ou três projetos que vão arrancar entre este ano e o ano que vem. Sendo certo que sempre que há um ‘Pôr do Sol’ por ano é trabalho suficiente para uma pessoa perder anos de vida e ganhar outros tantos, ou até mais porque é a coisa mais divertida de se fazer. (O ambiente) é ótimo, é um campo de férias. Este ano são 36 dias (de rodagem), este ano são mais episódios, mas nunca queremos fazer muito que é para não esgotar o formato.

O meu enorme agradecimento, uma vez mais, ao Manuel Pureza pela sua atenção e disponibilidade.


Espero que tenham gostado!
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